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Dias atrás uma amiga me enviou uma publicação que falava sobre vagas de trabalho “voluntário” durante o próximo SPFW. As vagas eram para um grande veículo de comunicação que é referência quando o assunto é moda.

Como já era de se esperar, o anúncio era uma sequência de exigências: saber escrever, ter conhecimentos em Photoshop, total disponibilidade, querer muito (é só uma semana mas é “puxado”) e preferência para quem faz faculdade de Moda, Jornalismo e tem habilidade com Final Cut.

Para concluir a descrição, vinha um belo trecho “engraçadinho” dizendo que eles não pagariam as pessoas por este trabalho, pois não tinham verba para isso. Fiquei alguns minutos tentando entender e bateu aquela tristezinha que sempre volta quando a gente percebe que o mercado da moda ainda tem tanto para melhorar. 

Vamos pensar juntos?

O anúncio diz que é trabalho voluntário. Eu te pergunto: é alguma instituição de caridade? a verba arrecadada com o SEU trabalho vai para quem? alguém está ganhando dinheiro com isso e não está repassando NADA para você. 

O anúncio também diz que você precisa ter disponibilidade total e querer muito (é puxado): isso quer dizer que provavelmente você mal terá tempo para comer, será cansativo, terá que dormir tarde, acordar cedo e vão te cobrar coisas o tempo todo.

E eles ainda exigem conhecimento. Quer dizer que tudo o que você aprendeu vai ser usado por outras pessoas para ganhar dinheiro enquanto você sorri e agradece por trabalhar exaustivamente DE GRAÇA.

Eu não sei se você, que esta lendo este texto, consegue perceber a gravidade disso. Na maioria das vezes, a gente fica tão empolgado com o fato de, FINALMENTE, poder trabalhar com aquilo que ama que não percebe o problema.

Algumas revistas de moda são conhecidas por ter esse padrão de contratação: trabalha-se muito e ganha-se quase nada. Vejam só: são grandes profissionais dedicando suas vidas em troca do que? de oportunidade de mostrar o seu talento? conheço gente que passou anos ganhando pouco e até hoje não teve seu talento reconhecido. Então seria em troca de glamour? É sempre bom lembrar que glamour não paga boletos.

Eu não vou te julgar se você quiser trabalhar desta forma. Não é para isso que nós tocamos neste assunto. O que eu te peço é que fique atento às “grandes oportunidades de trabalhar de graça” e reflita antes de aceitar uma vaga assim. Ela realmente vai contribuir MUITO para a sua carreira? ou é só mais uma imperdível oportunidade de ser explorado? 

Quando a gente lê sobre casos de mão de obra escrava fica tão triste por aquelas pessoas, mas no fim das contas, nem quem está nos corredores da semana de moda está longe disso.

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3 thoughts on “O mercado da moda e as “oportunidades” de trabalhar de graça”

  1. Vi essa vaga circulando pelo twitter e fiquei chocada com a cara de pau. Seria chato se o pedido viesse de um veículo menor, que visivelmente não tem verba (o que não justifica a exploração), mas vindo de quem veio, se tornou ridículo.
    Isso me lembra das diversas vagas de emprego que já vi pedindo junto ao currículo uma ideia de campanha/ação. Quantas dessas ideias vão ser aproveitadas sem o autor receber nada?
    Acho tudo isso de um mau caratismo vergonhoso, pois se aproveita do sonhos e também do desespero das pessoas que estão em busca de um emprego.

  2. Infelizmente o mercado dá moda está assim, já fui convidada para maquiar nesses termos e neguei gentilmente.
    Tem fotógrafos que também fazem este tipo de proposta: “vou te dar fotos em troca de trabalho”…Como se foto pudesse ser grelhada com salada…
    Como diz a autora: “É sempre bom lembrar que glamour não paga boletos.
    E isso mesmo, não paga boleto, não paga luz, não paga comida, curso, aluguel e etc… Esse povo vive de iludir os profissionais que querem postar no Facebook….Triste história real.

  3. Já trabalhei bastante empolgada com o trabalho em si, no caso, entregando panfletos. Hj em dia recebo paseb pq muitos desses trabalhos pagavam pouco mas eram registrados, também aprendi muito nessa época.
    No entanto, a auto-estima dá gente fica um pouco abalada com o fato de não sermos donos do nosso trabalho (na verdade ninguém é), mas pelo menos há negociação: dinheiro em troca de trabalho.
    Outro ponto é que enquanto a gente se empolga com o trabalho, outros detêm total direito sobre o que é produzido, especialmente em trabalhos voluntários.
    Engraçado que essa questão tem permeado minha reflexão desde ontem: até que ponderar devemos alienar nosso trabalho?! A quem devemos confiar nosso trabalho. Essas reflexões pressupõe escolha, porque se a pessoa precisar se submeter para atender a necessidades básicas certamente que a pessoa não tem muito o que pensar.
    Enfim. Gosto muito desse blogs, aliás.

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